Brasileira, solteira, num cruzeiro pelo Alasca.


O Cruzeiro para o Alasca é um típico enlatado americano. Profissionalismo e infraestrutura de altíssimo nível, tudo de excelente qualidade e bem preparado para que não haja aborrecimento, até no meio do nada. Eu comprei um pacote de 7 dias que sai de Vancouver, no Canadá, e vai até Anchorage, no Alasca. Paguei US$1.700,00 (mil e setecentos dólares) por uma cabine para duas pessoas. Mas fui sozinha porque acabei de me separar do meu marido. Yes! Fui sozinha. E graças a Deus não me arrependi.

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Saímos de Vancouver no final da tarde e, já no começo vieram as primeiras surpresas. No verão, os dias nessa extremidade do mundo são muito mais longos. Eram mais de 10 da noite e o céu ainda estava claro como 3 da tarde (veja a foto acima). Por mais que a gente já saiba que é assim, é muito impressionante ver com os próprios olhos.

Outra coisa que começava a me impressionar era a vegetação, uma floresta imensa e constante de pinheiros muito altos e densos. Um verde absurdo. Eu, sinceramente, esperava ver só gelo. E mais um terceiro detalhe que também me surpreendeu logo de cara. O cruzeiro pro Alasca não é constituído só de gente da terceira idade. É uma mistura perfeita de várias faixas etárias e perfis. Ou seja, tinha sim muita gente da minha idade, entre 30 e 40 anos.

O segundo dia foi todo no mar, subindo a costa oeste canadense rumo ao norte. Para quem tem um trabalho estressante como o meu (praticamente todo mundo da classe média), um dia inteiro para ficar de pernas pro ar num navio é simplesmente um sonho.
Estava ‘hospedada’ no Sapphire Princess, de bandeira e qualidade inglesas. Dispõe de dez jacuzzis, seis piscinas, internas e externas, quadra poliesportiva, pista de jogging, spa e academia completos, teatro, cinema ao ar livre, cassino, restaurantes, bares e boates diversos. Enfim, tudo que alguém precisa para não correr o risco de ficar entediado. Páginas e mais páginas de atividades diárias, para todas as idades e gostos.

Como atividades básicas, eu escolhi jacuzzi, corridinha, gastronomia (vulgo, comer igual uma louca), academia, mais jacuzzi e outra corridinha. Também fiz uma horinha de acupuntura, de algas desintoxicantes e uma terceira aula sobre como preparar o Gravlax, um salmão típico dos países nórdicos que é cozido por 3 dias sem utilização de fogo, só na acidez do limão e do sal. Delicioso e muito comum no Alasca. À noite eu fui a um show de comédia no teatro do navio e depois para o jantar à francesa em uma mesa que eles preparam com uma galera da mesma idade que a sua. Veja a foto do navio atracado na cidade de Juneau.

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Depois do jantar, são oferecidas várias opções de entretenimento, como num típico cruzeiro americano. Shows, blackjack, karaokê, anos 80 na boate, bingo, trívia, etc… Mas eu vou ser bem sincera com vocês, para uma brasileira, solteira, na minha idade, cheia de vinho na cabeça, o melhor mesmo era ir ler mais um capítulo do meu Dan Brown, “Inferno”, e dormir o sono dos justos. Foi o que eu fiz.

No dia seguinte, acordei já atracada no extremo sudeste do Alasca. Estava cheia de expectativas para saber o que me aguardava. Tomei o café da manhã do navio e então desci. A primeira imagem foi bem diferente do que eu esperava. Uma cidadezinha super bonitinha, toda colorida chamada Ketchikan, espremida pelo mar de azul brilhante ao pé de uma montanha gigante, super verde e imponente. As atividades principais para turistas na cidade são fishing, shopping, degustação de salmão defumado, caminhadas ao redor de um riacho muito lindo que corta a cidade, apreciando as reproduções dos tótens de madeira que os nativos criavam para exaltar seus ancestrais, e também subir de bondinho a montanha para fotografar a cidade lá de cima.

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A visita a Ketchikan foi bem rápida, no começo da tarde já estávamos embarcando de volta para continuar a viagem. Após várias outras horas de navegação, no caminho, pelas 6:30 da tarde, no exato local previsto pelo roteiro, lá estavam as baleias. Se exibindo fora d’água para nós turistas. Impressionantes e muito difíceis de fotografar. O melhor foi só admirar mesmo.

No terceiro dia, chegamos à capital Juneau.

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Uma cidade maiorzinha, mas ainda bem pequena. A capital do Alasca é do tamanho do Leblon? Talvez, no máximo. Surpreendi-me de novo. A atividade principal da cidade é a trilha ao topo do Mount Roberts, onde você finalmente vai ver gelo.

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Ou então um passeio de helicóptero até a geleira mais próxima. Subi de bondinho a montanha e fiz a trilha lá de cima. Visual deslumbrante de uma floresta extremamente úmida, pois chove horrores durante o ano.

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E descobri que salmão adora uma chuva. Na reserva florestal, lá de cima, assisti um filminho sobre a história do Alasca, de como os nativos chegaram ali vindos da Ásia, passando pelo estreito de Bhering, e depois como os russos colonizaram a região há 500 anos. O filminho mostra como os russos foram pacíficos, só interessados pelas peles de animais, o que escambeavam por armas e metais. Depois vem a história da venda do Alasca pelos russos para os americanos 200 anos atrás, por uma pechincha irrisória.

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Os americanos, ao contrário, foram altamente cruéis, apossando-se brutalmente das terras dos nativos, matando todos os que não aceitavam ser catequizados, queimando seus templos e dizimando todo e qualquer vestígio de cultura local. Imperialistas, queriam o ouro do Alasca. E essa foi a razão da fundação da próxima cidade do roteiro no quarto dia.

Skagway, localizada ainda no braço sudeste do estado, tem o estilo faroeste. Extremamente preservada com fachadas de prédios ainda originais do século retrasado! Foi criada na corrida do ouro, e hoje vive do turismo. Atividades na cidade também são hiking, rafting e um passeio pelo trem que ajudava os garimpeiros a subirem a montanha gelada e alcançarem as margens do rio de ouro que fica já no lado do Canadá.

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Finalmente no quinto dia chega o grande momento da viagem. A visita ao parque nacional Glacier Bay. Uau! Valeu a pena esperar. Foi a primeira visão condizente com o que eu imaginava sobre o Alasca.  A reserva tem um colorido impressionante. Misturas de vários tons de azuis, verdes, marrons e, claro, o majestoso branco que só existe ali. Branco das nuvens, das montanhas, dos icebergs desgarrados flutuando pela baía e o grande branco colossal das geleiras. Quanto maior a densidade do gelo, maior a sua coloração azul radiante de profunda beleza. O gelo sob grande pressão absorve a luz de frequência baixa (vermelho) e reflete a de frequência mais elevada (azul).

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Toda a baía era coberta de gelo no ano de 1766, quando recomeçou o mais recente processo de degelo e que formou hoje as 7 geleiras remanescentes da Glacier Bay. Uma curiosidade é que só as geleiras que estão em movimento é que são brancas. As que estão estagnadas estão cobertas de terra e pedras sedimentadas e se parecem exatamente como uma montanha, mas são gelo por dentro.

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A Marjorie Glacier, da foto acima, se move a 1 metro e meio por dia. O cruzeiro pára bem pertinho da face da geleira e você consegue facilmente ver e ouvir os pedaços de gelo caindo à sua frente a praticamente cada 15 minutos. O barulho é estrondoso! Mesmo um pequeno pedacinho de gelo quando cai das alturas gera uma onda de ecos entre o mar e as paredes das montanhas que se assemelha a uma trovoada aterrorizante. Agora imagina quando desgarra uma estalactite gigante lá do topo da geleira e ela se espatifa no mar. A comoção no navio é total. Um grande chafariz de água e pedaços de gelo jorram de volta por vários andares de altura em frente aos nossos olhos. E então vem o longo trovão. Roarrrr!!!!! Uma grande salva de palmas e de ovas se segue rapidamente pelo navio inteiro. Que espetáculo de integração do homem com a natureza.

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Visitamos outras geleiras nos últimos dias da viagem. Incluindo a magnífica College Fjord, da foto abaixo. E então atracamos no porto de Whittier perto de Anchorage, a maior cidade do Alasca, situada ainda ao sul, porém mais no centro do estado. Ali o navio faz meia volta e embarca novamente para Vancouver, mas Whittier era o meu porto de desembarque.

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Anchorage é uma grande e típica cidade americana, com highways, shoppings, downtown, quinta avenida, hotéis de luxo, etc. Eu gostei muito do passeio de bicicleta pela sua orla, da visita ao mercado ao ar livre, com várias opções de salmão para comer e da caminhada pelo Salmon Creek, um riacho cristalino onde se pode apreciar o salmão vivendo livremente, selvagem, in natura, no meio da cidade.

Em Anchorage eu descobri em um filme que a Aurora Borealis não é um fenômeno que pode ser visto de qualquer forma pelos turistas. Necessita de céu aberto e noites escuras, o que não acontece no verão do Alasca, além de ser ainda muito desconhecido e imprevisível, pois depende de furiosas erupções solares para acontecer.

A minha viagem se encerrou em Anchorage, mas eu apenas comecei a desbravar as surpresas desse lugar que se auto denomina “A última fronteira”. Para quem quiser ainda mais aventura é só continuar seguindo ao norte de Anchorage, pois o Alasca ainda tem muito mais a oferecer, como por exemplo, a tradicional corrida de huskies siberianos de Iditarod e a reserva nacional de Denali, onde se pode ter a verdadeira idéia do que é a vida selvagem do Alasca e ainda, quem sabe, até se deparar com um autêntico esquimó. Mas estes são assuntos para uma outra vinda.

Eu me despeço por aqui. Esta é a última noite da minha viagem em que eu aproveitei para escrever esse post no blog do meu grande amigo Felipe. Mas vou dormir agora porque são duas da manhã e por aqui já está amanhecendo.

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8 respostas para Brasileira, solteira, num cruzeiro pelo Alasca.

  1. Alline disse:

    Oi Felipe!
    Ficou muito legal!!
    Grande ideia essa sua de convidar amigos pra postar no seu blog tambem. Acho que vai animar ainda mais isso aqui
    😀

    Alline

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  2. Danielly disse:

    Adorei seu post Alline, muito informativo, da mesmo vontade de visitar o Alaska. Parabens por ter ido a essa cruzeiro sola… Fez muito bem de ter ido… O fato de voce estar lendo um livro, creio que refletiu no seu post, algumas das descricoes que destes parecem mesmo sair de um livro. Good job!!

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  3. cleusa maria de oliveira disse:

    adorei…

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  4. Brasiliense disse:

    Muito bem escrito o texto e ótimas as fotos. Depois faz um relato das aventuras em Montevidéo, rsrsrs. Parabéns!

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  5. Felipe Cuesta disse:

    Alline, o post do Alasca foi mesmo excelente. Marcou sua estreia nas letras em grande estilo!

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  6. Pingback: Não aprendi nada na escola. Um desabafo. | As Viagens de Alline

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