Não aprendi nada na escola. Um desabafo.


Certo dia estava em meu computador e recebi um artigo de um amigo que, sem nenhuma formação jornalística, publicara em seu blog de viagens. Confesso que senti um preconceito logo de cara.

Comecei a leitura pronta para fechar o navegador assim que a minha paciência acabasse. Era um relato cheio de detalhes pessoais e emocionais, escrito em um estilo completamente casual e amador. Tudo com uma confiança absurda e uma aparente segurança, que me deu de imediato uma inveja enorme. Achei aquilo o MÁXIMO! Li o post inteirinho com muito prazer e me simpatizei completamente pelo texto, principalmente pelo seu estilo honesto, apaixonado, despretensioso, bem humorado, simples de se ler e de altíssima qualidade.

Sucesso absoluto! Fiquei muito feliz por ele. Uma iniciativa que pode ser capaz de inspirar tantas outras pessoas, precisando só de vontade e bravura para fazer o mesmo. Eu, particularmente, não tinha nenhuma das duas coisas, nunca considerei aquela possibilidade voltada para mim.

Mas em uma das minhas viagens pelo mundo, na ocasião era no Alasca, comentei que eu gostaria muito de ler um artigo seu sobre o lugar em que eu estava. Ele respondeu dizendo que eu mesma escrevesse, que ele publicaria em seu blog.

Considerei o convite uma completa piada. De verdade… A única coisa mesmo que moveu a minha preguiça e me impulsionou a escrever foi a grande sensação de desafio que eu senti, num momento levemente ocioso, em que eu não tinha muito mais o que fazer a não ser turismo. Essa curiosidade por conquistar uma realidade nova, em pleno tédio mental, rapidamente me encheu a cabeça com o sentimento de vontade que faltava. E meu amigo estava ali para me dar o restante de coragem, eu não estaria sozinha.

Foi assim que eu dei o primeiro passo. E resumindo, isso é tudo que precisa ser feito. Todo o resto é como uma avalanche de estímulos e prazeres naturais, retroalimentado pelo próprio ato de escrever e ser apreciado. Blogueiro experiente, meu brilhante amigo já estava escolado nisso.

Ao copiar seu estilo descompromissado, surpreendentemente eu consegui escrever com facilidade sobre o Alasca. O lugar estava me enchendo de emoções inesperadas, que me inspiravam sentenças relevantes o suficiente para serem ditas em qualquer conversa de botequim. Eureca!

Agora falta só as pessoas lerem e enviarem pelo menos um comentariozinho de volta.  Já ia fazer tudo valer a pena. Haja ansiedade.

E não foi muito diferente do que deveria ser. Vergonha ultrapassada, preconceito quebrado, preguiça superada, só me resta partir para o abraço. O meu primeiro post ficou bem decente, porque foi escrito com paixão e com verdade. Os amigos rapidamente reconheceram o esforço, acompanharam a gostosa brincadeira e me aplaudiram com alegria. Consegui até alguns leitores fora do meu círculo de amizades, o que já me transforma numa escritora amadora bem sucedida. Tudo graças àquele meu amigo.

Não pretendo mais parar. Hoje eu sei que escrever é tão prazeroso que nem preciso muito mais de alguém que leia, mas é claro que leitores são excelentes e eu os quero cada vez mais.

Em suma, se até eu me tornei uma escritora, qualquer um também pode ser, basta só começar (sim, eu estou falando de você).

….

Como pode perceber, eu sempre tive um bloqueio enorme contra a escrita, assim como até hoje ainda tenho certeza absoluta que jamais serei uma desenhista ou uma cantora.

Falta-me o talento? O dom nato? Era o que eu pensava.

Acontece que por um passe de mágica ou, melhor dizendo, por meio de um singelo incentivo e pela combinação perfeita entre liberdade de estilo, de expressão e de contexto, talvez pela primeira vez eu tivesse deixado fluir dentro de mim o MEU dom nato. O meu próprio jeito de expressar a minha própria arte. Sem o medo de ser criticada, sem a vergonha de expor uma “ausência” de talento e de profissionalismo.

Aí eu me pergunto: Por que é que nenhum dos meus professores, durante toda a minha vida acadêmica, foi capaz de acender essa mesma centelha em mim? O que diabos eu fiquei fazendo tantos anos numa escola??

Sei que vários tentaram. Mas, sempre que eu era obrigada a escrever uma redação, os temas e os estilos tinham restrições, veladas ou não. Desde cedo eu aprendi que não devia ficar escrevendo na escola as coisas do meu real interesse, nem muito menos do jeito que eu achava que elas deveriam ser ditas. As consequências sempre foram extremamente desastrosas. Os que deixam suas emoções fluírem sem filtro e se arriscam a se expressar com genuinidade, sofrem bullying sem perdão. Ainda hoje tenho amigos que seus apelidos vieram de crônicas que eles ousaram escrever na escola.

E depois, vem a maldita nota. A última coisa que eu quero ao escrever é ser julgada. Críticas até que não ferem tanto, mas nota não dá. Comparar a literatura de uma criança com a da outra, dar uma nota baseada em padrões arcaicos, moralistas, senis e principalmente repressores, é o mesmo que arrancar com a mão todo e qualquer interesse que essa criança virá a ter um dia em expressar-se com naturalidade.

Quanta covardia. Nem preciso dizer que minhas notas em redação sempre foram zero. Sempre tive todos os motivos do mundo para sufocar os meus impulsos criativos. E quando tentava copiar os estilos dos adultos, “fala sério, tipo assim”, não dava… Nota vermelha na certa!

E assim eu fui educada. Aprendendo que eu só prestava para matemática mesmo. Aprendendo que só um dos lados do meu cérebro funcionava. Aprendendo que escrever é um saco.

Fica aqui o meu protesto contra a educação que eu recebi na escola, e que até hoje é exatamente a mesma coisa. Sei que é dificílimo para um professor de mentalidade aberta e avançada realizar qualquer mudança no padrão estabelecido pelas escolas que pagam seus salários. Mas gostaria de pedir para que pelo menos reflita sobre o assunto.

Além de várias outras coisas, eu também sou professora. E posso garantir que se eu não for a primeira a aprender com a minha própria aula, eu considero o meu tempo completamente perdido. Mas sou eu que organizo e vendo os meus próprios cursos, eu não dou aula em nenhuma escola, então não dá para comparar.

Posso dizer que 1980 foi o ano em que eu fui alfabetizada, mas 2013 foi quando eu “aprendi” a escrever. Por isso quero fechar esse ano compartilhando essa divina experiência, que talvez faça acender em você a centelha para se tornar também um futuro escritor, e um professor melhor. 

Que venha um 2014 cheio de criações novas dos meus amigos e leitores e cheio de professores fantásticos prontos para revirar esse nosso sistema de ensino do avesso! Estou pronta para aplaudi-los a todos.

Um Feliz Blog Novo para você!

Grande abraço,
Alline!

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8 respostas para Não aprendi nada na escola. Um desabafo.

  1. Felipe Cuesta disse:

    Fala Alline, parabéns! Você foi brilhante com seus textos em 2013. Tem um estilo leve, gostoso de ler e que faz com que seus muitos leitores se envolvam e se emocionem com a sua escrita. Você escreve com o coração e, por isso, bato palmas de pé para o seu talento! Só confesso que não me surpreendi com o que vi, pois sempre soube do que vc era capaz. Que venham muitos outros novos escritos em 2014 sobre viagens e quaisquer outros temas que você resolva falar.

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    • allineo disse:

      Muito Obrigada!!! Meu grande mestre luminoso!
      Devo tudo gracas a voce!
      E a esse seu fantastico blog: DoRioProMundo.com

      2014 vai trazer ainda muito mais coisas boas para a gente.
      Beijao no coracao!
      Alline

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  2. Ana Vitória disse:

    Quando li o seu texto lembrei de tudo que passei e passo na escola.
    Tenho uma página chamada diário de classe, fiz inspirada na Isadora Faber e lá como ela faço denuncias a escola. Escrevo tudo o que penso sobre a escola, tudo mesmo! A merenda, os professores e até mesmo o sistema de educação que é usado nosso país.
    Lembrei de quantas vezes meus professores me questionam do porque meus textos nas provas de redações são tão diferentes dos textos da minha página e que isso talvez fosse uma prova uma prova de que não era eu quem escreve, mas um adultos.
    Pensa bem, um professor falar que a um adolescente que os textos não são seus só porque estão muito bons, quanta covardia um mestre da educação duvidar do talento de seu aluno!
    E sim, meus textos da página são diferentes das provas.
    Nas provas não temos liberdade para escrever o que queremos e da forma que queremos.
    Quase mataram o escritor que existe em mim, mas quando li o seu texto vi que vale a pena continuar escrevendo, incentivar meus colegas a escrever e no futuro ser como você, uma professora diferente!

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  3. Raquel Paulo disse:

    PERFEITO O TEXTO…..verdadeiro…..infelizmente é a ineficiência e péssima qualidade do sistema de ensino do Brasil.

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  4. Augusto disse:

    eu estava procurando por outra coisa, sabe aquela duvida que você espera por uma resposta mas encontra uma outra.
    mesmo assim, fragmentos do que eu precisava foram absorvidos nesse seu texto, na verdade deu pra absorver tudo o que você quis passar, com definições das coisas como “tedio mental” que eu não sabia que tinha ate você dizer esse nome. Resumindo, esse texto é de certa forma inspirador, eu poderia dizer que sinto muito ler agora que depois de anos, mas o que me consola na vida (uma das poucas coisas) é que cada um tem seu tempo, talvez esse texto não tenha vindo até min antes porque simplesmente não era pra ser, sei que você deve entender o que eu quero.
    Bom escrevi tudo isso só pra dizer que agradeço! E que continue com esse trabalho, que é a sua cara, é o que você gosta então na há porque parar! Obrigado

    Curtido por 1 pessoa

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