Aqui não é Paris, não. Aqui é só love!


Gente, a foto abaixo, postada no meu face, foi a última que eu tirei minutos antes de meu celular ser puxado da minha mão por um bandido no meio de uma multidão de gente. Observem o texto da legenda.

solove

Gritei pega ladrão igual a uma desesperada e o moleque saiu andando rápido e empurrando as pessoas a sua frente até encontrar sua gangue de mais uns 10 adolescentes há uns 30 metros de distância, e eu atrás dele furiosa e inconsequente. Alcancei-o e fiquei cara a cara com o infeliz, gritando “Devolve meu celular seu filho da puta!”. Ele cabisbaixo e sem graça estendeu a mão para mim com o meu celular. Cheguei a encostar meus dedos no aparelho quando um outro moleque menor e mais marginal atrás de mim me passou uma rasteira e eu cai no chão sem que tivesse agarrado o telefone de volta.

Enquanto caia percebi que  já havia se formado uma rodinha ao meu redor e um deles me deu um chute quando encostei o chão. Eu gritava muito e as pessoas já estavam percebendo melhor o que estava acontecendo e começavam a se movimentar para tomar uma atitude. Quando todos os bandidinhos imediatamente se disperçaram e dissolveram-se na multidão.

Eu me levantando rapidamente percebi que de uma hora para a outra toda a Copacabana se parecia com eles, era como se eles estivessem em toda a parte. Ao mesmo tempo que um monte de outros adolescentes inoscentes iguaizinhos a eles estavam também por lá, olhando para mim.

Todas as pessoas por ali estavam assustadas e prontas para agir se soubessemos quais eram os moleques exatamente. Um monte de gente se agitando e se perguntando cadê eles? quem são? onde? ali?

Batalhões e mais batalhões de polícia estavam todos equipados a pouco menos de 200 metros do ocorrido, em todas as direções em que eu olhava havia um grupo de guardinhas armados até os dentes, vários com fuzil em punho. Mas exatamente onde eu estava não havia nenhum policial. Entendi o porque os bandidos escolheram aquele lugar para agir. Ali naquela região exata eles teriam os segundos necessários para se disperçar.

Os gritos chegaram aos policiais em questão de um minuto e já estavam dezenas e mais dezenas deles correndo com a mão no revólver prontos para matar. Correram, se aglomeraram, se posicionaram, agiram e pegaram vários moleques. A população aos berros ovacionava a operação com enorme satisfação. Colocaram todos em fila ali mesmo na Avenida Atlântica em frente ao posto 5, revistaram, fizeram perguntas e levaram para a delegacia. Um dos moleques no meio da revista se virou, saiu correndo e em pouco passos já estava de novo no meio da multidão disperçado e livre. Eu estava ali do lado, escondida atrás de um grupo de policiais vendo tudo e tentando reconhecer alguém. Tenho certeza que o que correu e fugiu não era o que me roubou. Era mais baixinho e vestia uma bermuda muito mais clara.

O tenente do batalhão pediu que eu fosse até a viatura e reconhecesse alguém para eles poderem prender. Eu estava em pânico. Sei que eles poderiam me reconhecer de volta e mandar alguém da gangue enfiar uma faca em mim há qualquer momento, até mesmo meses depois desse dia. Mesmo assim cheguei mais perto por insistência do tenente mas não reconheci nenhum deles. Pelo menos não eram o que me assaltou. Os outros da gangue eu não sei.

Eu sei que eu não deveria estar num evento em Copacabana desatenta, tirando fotos com o celular solto pelo ar. To cansada de ver arrastão no RJ TV, e por incrível que pareça, não passou pela minha cabeça que ali naquela passeata havia algum risco. Todo mundo também tirava foto sorridente, como comprova a própria foto acima, e eram muitos policiais a postos que estavam literalmente em toda a parte. Havia sim uma sensação coletiva de segurança. Tiro foto de evento na rua o tempo todo, moro ali e nunca tinha visto um arrastão de perto. Mas estou impressionada com o modo que as coisas funcionam na vida real, fora da televisão. Agora entendo melhor como agem realmente e com certeza não vou vacilar de novo. Eles são muito rápidos e parecidos uns com os outros, extremamente organizados e experientes, escolhem lugares em que podem se disperçar com facilidade para não ter como identificá-los.

Fui fazer o B.O. mas a delegacia estava completamente lotada. O atendente me disse que já tinham sido mais de 20 arrastões na praia aquele dia e muitos mais estavam por vir, que eu voltasse no dia seguinte. Eles estavam de olho, pegando, prendendo e fazendo o trabalho deles. É um serviço incessante e a população precisa entender melhor como isso funciona. Dezenas de vítimas desavisadas como eu só naquele dia e naquele local, mais de um milhão de celulares roubados por ano no Brasil, um grande prejuízo para o povo, para o turismo brasileiro, para a civilidade nacional, e um enorme desfalque nas contas do estado.

Na minha opinião a informação precisa estar ali na hora dos acontecimentos e não na TV no dia seguinte. Uma questã0 de timing. Cartazes de aviso para não expor seus objetos de valor precisam estar a mostra DURANTE o evento de risco. Os trios elétricos precisam lembrar a população repetidamente para ficar atenta. Os policiais precisam estar circulando junto com o povo dentro da multidão, onde os trombadinhas agem, avisando a população para se prevenir porque os meliantes estão em ação ALI E AGORA. Eles têm megafone para quê mesmo?? As câmeras de fiscalização nos postes da cidade deveriam servir para mais que multar. A gente não percebe o risco antes do crime acontecer.  Toda aquela agitação da festa é muito distrativa para quem nunca foi roubado antes.

Foi então o que eu comecei a avisar para todo mundo que estava tirando foto que acabaram de roubar meu celular e todos imediatamente ficavam atentos e guardavam suas máquinas. Rapidamente entendiam que ali havia risco sim, apesar de não parecer à primeira vista. Repassavam a informação e me agradeciam pelo pequeno lembrete. Sei que salvei vários celulares com o meu simples gesto.

Os bandidinhos nem olharam para a minha bolsa porque estava pendurada no meu pescoço e presa no meu braço, bolsas também são mais fáceis de reconhecer. Eles estavam focados nos celulares de fácil acesso. Se você mesmo não expor o seu próprio celular eles não tem como te roubar, correr e passar o objeto furtado para o outro da gangue em questão de segundos no meio de uma multidão de gente, principalmente com um monte de policiais há metros de distância. É só uma questão da informação certa, no LUGAR certo e na hora certa! NÃO ADIANTA ANTES E NEM DEPOIS. Não adianta a gente estar cansado de saber do risco. O problema é ALI NA HORA. O trabalho da polícia tem que ser de prevenção e de inteligência ali na hora dos crimes. Para mim falta Q.I. e eficiência no serviço público. Um décimo desse arsenal de profissionais dariam conta de resolver o problema com muito mais eficácia se fizessem o trabalho básico preventivo. Eles precisam estar muito melhor posicionados, e sem o receio de prevenir. Abordando os adolescentes em bandos suspeitos, pedindo seus documentos e perguntando o que estão fazendo por ali. Se agirem sem violência antes do crime, poupam ter que usar a violência no depois. Inteligência evita truculência. Não entendi como pode isso. Pivetes adolescentes e sem estudo são mais eficientes no crime que profissionais “experientes” do ramo da segurança.

Nesse momento entendi e concordei com a frase do meu querido vendedor de bandeiras no plano de fundo da fotografia acima. Aqui não é Paris, não. Lá em Paris a inteligência da polícia consegue identificar em pouquíssimo tempo a ação de terroristas altissimamente qualificados e treinados por toda uma vida para agirem com muita eficiência. Seguranças de estádio de futebol conseguem prevenir a ação de homens-bomba dispostos a tudo e os obrigam a se explodirem sozinhos. Aqui não é Paris mesmo. Aqui é só love.

Já não uso nenhuma jóia no Brasil, e nem tenho nada de valor em casa. Morei anos no Rio e essa foi a primeira vez que fui roubada. Eu e todo mundo usa o celular sem parar na rua, tiro foto de tudo o tempo todo e estou sempre postando. Sempre me senti relativamente segura na Zona Sul, faço caminhadas a noite no calçadão tranquilamente, eu e mais milhares de pessoas, turistas ou não. Tudo iluminado, policiado, movimentado, tranquilo. Nunca tinha acontecido comigo. Aqui é só love, mas agora que fui vítima pessoalmente, vou ser mais atenta com meu celular e minha bolsa.

Já mandei a Google apagar todos os dados do meu celular pelo serviço anti-roubo do Android. Meu celular tem tudo a meu respeito, meu email, meu facebook, minha vida inteira está ali e bandidos poderiam me achar e acabar comigo há qualquer momento se quisessem.

Todo celular tem um número identificador que se chama IMEI e tenho perguntado para as pessoas como funciona o bloqueio disso. Nem a polícia nem as operadoras de telefonia conseguem explicar como o processo funciona exatamente, cada um diz uma coisa diferente. Os bandidos conhecem os hackers que conseguem sobrescrever o IMEI do celular por outro para reativá-lo e revendê-lo, parece que somente a Apple bloqueia celulares efetivamente diminuindo suas vantagens no roubo. Parece que os bandidos evitam roubar iPhones. Ainda vou descobrir exatamente porque e quem não quer que o roubo de celulares cesse no mundo. Os bandidos certamente têm essa informação.

No final das contas estou mais tranquila agora. Porém sem celular… ahhhhhhhh !!!!!

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2 respostas para Aqui não é Paris, não. Aqui é só love!

  1. wkvn@hotmail.com disse:

    Querida Aline, chamo a de querida nao por sermos “intimos” mais sim pela forma de levar a vida e com certeza ser bem quista por muitos. Simplesmente incrivel seu site que compartilha lmo ugares e momentos que muitos, inclusive eu, nao estarei (exceto SD cal) amei suas fotos, me fez recordar quando fiquei meses la. Para realizar essa quantidade de viagens foi trabalho duro ou abencoada por Deus ? rs desculpe minha pergunta, mas gostaria de entender minhas chances de viajar assim. Mais uma vez Parabems pelas viagens, inteligencia e por dividir conosco momentos tao especiais. Ultima pergunta: Depois de viajar o mundo, ser roubada na sua terra natal traz qual sentimento ? Se arrependeu em algum momento de voltar ao Brasil ? Grande abraço amei sua escrita e fotos.

    Curtido por 1 pessoa

    • allineo disse:

      Oi Wkvn! obrigada pelo comentario!
      Com certeza essa quantidade de viagens foi resultado de muita bencao e muito trabalho duro juntos!
      Me lembro quando tinha uns 19 anos de idade e um amigo me mandou um cartao postal de San Francisco e uma foto dele com a Golden Gate atras. Eu pensava assim: “Nossa, isso ai e’ um sonho! Nunca que eu vou conseguir fazer uma viagem dessas… Mal consigo ir uma vez por ano pro Guaruja…”. E entao os anos se passaram e a maturidade me fez entender claramente que nos somos os responsaveis pelo nosso tempo e pelas nossas escolhas. O que priorizamos e’ o que iremos realizar com mais frequencia em nossas vidas, conscientemente ou nao.
      Uma coisa e’ bem certa pra mim: Tudo e’ possivel!

      Quanto a voltar ao Brasil, tambem foi uma escolha, e estou muito feliz! Nao estaria tao feliz se nao tivesse saido e conhecido tantos outros lugares. Sei que faz diferenca ter vivido todas essas experiencias para so’ entao voltar. Quanto ao roubo, so’ me levaram um celular, nao levaram minha vida e nem me violentaram. O que e’ material a gente repoe. Mas logicamente que luto muito para mudar essa realidade do meu pais que quanto mais eu viajo mais eu amo.

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