Viagem na maionese


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Em um de meus mais recentes momentos de turbulência mental, comecei a divagar sobre o Dilema do Bonde, muito bem ilustrado por este menino de 2 anos neste artigo comi-trágico:

http://m.megacurioso.com.br/memes-e-virais/100289-menino-de-2-anos-resolve-classico-dilema-moral-de-maneira-hilaria-e-brutal.htm

Eis o Dilema do Bonde em si:

Um bonde está fora de controle em uma estrada. Em seu caminho, cinco pessoas amarradas na pista por um filósofo malvado. Felizmente, é possível apertar um botão que encaminhará o bonde para um percurso diferente, mas ali, por desgraça, se encontra outra pessoa também atada. Deveria apertar-se o botão?

Vou sair tagarelando sobre os pontos que vão passando pela minha cabeça:

1. Primeiramente, a minha resposta para o dilema é: Independente.
Explico: Tanto faz a morte de uma ou de cinco pessoas. Morte é morte, vida é vida, e vida na minha cabeça é única, incomparável, instranferível e incomensurável. Assim como o amor, o infinito, Deus, as areias do oceano, etc. A não ser que a humanidade descubra uma fórmula humana para se medir literalmente a vida. Aí a resposta para este dilema fica tão óbvia quanto  (-1 +5) = +4.

2. Para colocar este dilema mais interessante e irrefutável, existem variações sobre a idade das pessoas nos trilhos, sobre a vida regressa dessas pessoas amarradas, sobre a quantidade de pessoas necessárias para se apertar o botão, etc. Então vamos lá. Supondo que no trilho corrente as 5 pessoas tenham todas mais de 80 anos, e no trilho do desvio tenha uma única criança de 5 anos. Ainda sim minha resposta é Independente, porque, além do fato já divagado que vida é vida na minha opinião, se a intenção da variação no dilema é questionar o valor de uma vida com o passar da idade, então tem como se valorizar os dois lados. A vida de um idoso é uma biblioteca ambulante, cheia de contribuições essenciais a serem passadas para as outras vidas na Terra. Por outro lado, a vida de uma criança só começou a ser vivida e seria justo dar a ela o direito de continuar a vivê-la. Ou seja, vida continua sendo incomparável. E sobre a variação de que as 5 pessoas do trilho em vigor seriam pessoas malvadas, e no outro lado do trilho seria uma pessoa boazinha, pobre e inocente, a minha resposta seria ainda: Independente.

3. Porém eu estou ainda a divagar sobre o fato de que, e se essas pessoas malvadas fossem:  Hitler, Stálin, Mao Tse Tung, Kim Jong-un, Donald Trump, Lula e Bolsonaro juntos, como exemplos de crueldade extrema. Ainda sim seria Independente para mim? Aí entra a questão da pena de morte na minha opinião. O dilema passa a ser outro completamente diferente e eu nao defini a minha posição sobre esse assunto ainda. Nesse caso específico então minha resposta não seria “Independente”. Eu pessolmente não apertaria o botão e a vida da criança seria salva por mim. Mas acredito que o dilema em questão aqui é outro, é sobre ética. Ou seja, o ideal é focar em hipóteses mais apropriadas para o debate, como o fato das pessoas no trilho serem pessoas normais, assim como eu e você.

4. Eu sei que minha simples resposta “Independente” na verdade não resolve nenhuma questão em si. Ficar em cima do muro não é a idéia do dilema, mas sim tomar uma atitude consciente dentre duas opções igualmente responsabilizadoras, tanto de apertar o botão quanto de propositadamente não apertar o botão. Ou seja, não apertar o botão não significaria aqui fingir que não sabia o que estava por vir, simplesmente se isentar da escolha e culpar o acaso pelas consequências do ocorrido, ou ainda culpar o que quer que seja que fez com que aquelas pessoas aparecessem amarradas naqueles trilhos. Se eu não apertar o botão eu continuo sendo responsável pelo manejamento dos trilhos, e por consequência, eu escolhi conscientemente sua direção.  A idéia aqui é impor forçosamente uma decisão fatal em face a uma situação extrema. Mesmo que hipotético e estressante, eu acho que o exercício mental é excelente para a nossa vida real.

5. O dilema é descrito como uma cena de tragédia letal e como humanos o nosso instinto é evitar o pensamento quando violento e mortífero. Simplesmente preferimos não ter que escolher nada e nem pensar no assunto se não tivermos que vivenciá-lo de verdade. A vontade é de não responder a pergunta do dilema e inventar uma desculpa qualquer para não precisar encará-lo de frente. Mas ah, qual é? Vamos lá! Não seja covarde! Faça a sua escolha! Você só tem um segundo! Não há tempo para a indecisão! Diga se você aperta ou não aperta a porcaria do botão? AGOOOORAAAAA!!!!!

Minha resposta é: não dá. Estou tentando simplesmente escolher, mas… não consigo. Acho que apertaria. Agora acho que não apertaria. Não sei o que fazer! Posso matar a mim mesma como opção?? Ahhhhh! Independente, caramba! No meu caso eu acho que o trem passaria por cima das 5 pessoas no trilho vigente por simples omissão minha e não por escolha. Eu não conseguiria tomar uma atitude consciente nesse momento aqui. Talvez se estivesse de fato diante da situação extrema em si, talvez o estresse me daria a luz para a solução desse dilema universal. Mas aqui, agora, para mim a resposta é: Independente, não dá para fazer uma escolha dicotômica sobre a vida. E nem acredito que seja este o objetivo desta.

6. O que eu quero dizer com Independente, é que talvez a resposta seria essa mesma do menino de 2 anos do artigo acima. Será que ele estava sendo mesmo cruel? Ou inocente? Ou ele estava nos dando a dica de que a resposta é para aceitarmos a morte? Acho que o paradigma é encarar a morte como algo orgânico e natural e não pensarmos tanto em como sempre evitá-la. A resposta talvez é ir contra os nossos mais profundos instintos e aceitar que morte é parte inerente da vida. Tanto faz morrerem as 5 pessoas de um trilho, ou a única pessoa do outro trilho. Independente. Todos vão morrer, mais cedo ou mais tarde. Quem vai decidir isso? Eu? Isso importa? E se a morte fosse algo ainda melhor que a vida? Quem de fato estaria sendo salvo? Talvez tenhamos que encarar a morte como algo que ela realmente é, inevitável.

7. Talvez o dilema seria: como eu preferiria que essas pessoas nos trilhos morressem? Atropeladas por um trem? Ou de alguma outra forma? Mais cedo? Ou mais tarde? A minha indecisão continua a mesma, mas a minha culpa muda de formato. A culpa que eu passo a sentir é por quem eu salvei e não por quem eu não salvei. Mas eu salvei quem morreu? Ou eu salvei quem viveu? O ideal seria que pudessemos salvarmos a nós todos, incluindo esta maquinista que vos fala. Se a morte e a vida forem coisas iguais, então todos estariam sempre salvos, independente da decisão que viesse a ser tomada. E isso inclui a salvação da consciência de quem for obrigado a tomar a decisão.

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