Viena. É muita história.


Desde o Paleolítico a população humana na região da atual Áustria já era intensa, repleta de tribos celtas.

Mas tudo começou mesmo no século I do Império Romano, quando a Legião X Gemina ocupou as margens do Rio Danúbio no assentamento celta de Vindobona e fundou um importante centro militar na antiga província da Panônia, para proteger a fronteira leste do Império Romano do Ocidente, tornando-se um município no século seguinte.

Sítios arqueológicos dessa época foram abertos em Viena em 1990, incluindo um bem legal que não tem como não visitar, porque remete à fundação justamente do centro da cidade, no meio do nosso caminho para lá e para cá.

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Os romanos ficaram na região até o século V. Por localizar-se na fronteira entre o antigo Império Romano e a Hungria, Vindobona recebia contantes migrações bárbaras, ou seja, estrangeiras, incluindo dos povos Vândalos, que não necessariamente eram violentos, mas apenas não compartilhavam os hábitos e a cultura romana.

Já na Idade Média, no século IX, o rei franco-germânico Oto I, o Grande, conseguiu expulsar definitivamente da região os Magiares (também conhecidos como húngaros), na decisiva Batalha de Lechfeld (apud Weniam), iniciando-se assim os primórdios do desenvolvimento de uma civilização austríaca, ou Österreich, nome derivado do termo germânico antigo Ostarrîchi, que significa “marca oriental”, também conhecida como Ostmark em alemão atual, a língua oficial na Áustria, termo muito usado posteriormente pelos nazistas.

E foi então no século XII que a já próspera e importantíssima cidade de Viena (Wien), do já consolidado Império Austríaco, tornou-se sua capital, tirando-a de Praga.

Os Habsburgos, uma das mais influentes dinastias da Europa, iniciada por Rodolfo I, o rei do Romanos (Rex Romanorum), do Sacro Império Romano-Germânico, reinaram soberanamente na Áustria desde o século XIII até o século XX. Mas fixaram residência em Viena somente no século XV.

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Por ser, na época, uma cidade com grandes rotas de tráfego comercial, muitos edifícios, alta densidade populacional, saneamento precário, sem galeria pluvial para o Danúbio e com muitos resíduos sólidos pelas ruas, no século XVII a pandemia da peste negra atingiu Viena mortalmente, mais do que outras cidades européias, dizimando cerca de um terço de sua população.

Os corpos dos mortos eram transportados de carruagem para fora da cidade e deixados expostos por vários dias em buracos grandes para serem queimados, espera que disseminava ainda mais a infecção.

Uma lenda interessante da cidade diz que um músico de rua muito popular na época chamado Augustin, numa noite em que estava muito bêbado, caiu desacordado num carrinho de mão que carregava corpos infectados e foi jogado vivo nos poços com as vítimas da peste. Augustin não contraiu a doença devido à alta influência do álcool e só acordou na manhã seguinte, sem conseguir sair debaixo de tantos corpos acima dele. Augustin começou então a tocar músicas em sua gaita de fole e foi socorrido ao ser ouvido. Essa lenda é lembrada até hoje como símbolo de esperança na cultura popular vienense pela canção “Oh du lieber Augustin“.

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Durante a dinastia dos Habsburgos, a Hungria, a Boêmia e várias outras regiões foram anexadas ao Império, que passou a se chamar Austro-Húngaro.

Grandes e importantíssimas figuras históricas reinaram sobre a coroa dos Habsburgos, como Maximiliano I, Carlos V, Francisco José I, dentre outros. Mas essa dinastia foi muito forte mesmo principalmente devido a suas monarcas mulheres.

Maria Teresa Valburga, a Grande, uma déspota esclarecida, governou por 40 anos o Império Austríaco do século XVIII que ocupava grande parte de toda a Europa Central. Apesar da tal da Lei Sálica, que definia as matérias de herança da época, impedir sucessões femininas, seu pai no entanto havia aderido a uma Pragmática Sanção que declarava expressamente sua filha como sucessora. E Maria Teresa foi uma excelente governante que prosperou seu império financeira e internacionalmente, porém foi religiosamente intolerante, fazendo com que seus súditos não católicos a considerassem extremamente conservadora.

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Teve 16 filhos, entre eles Maria Carolina, Rainha das Duas Sicílias, e Maria Antonieta, Rainha da França, que por sinal nunca foi a autora da famosa frase que já existia muito antes dela: “Se o povo não tem pão, que coma brioches”, porque de insensível e ignorante ela não tinha nada.

Também teve uma bisneta de educação e dignidade impecáveis chamada Maria Leopoldina de Habsburgo-Lorena, querida Imperatriz do Brasil, esposa do nosso Dom Pedro I e a mãe de nosso Dom Pedro II.

A Revolução Francesa e sua posterior Revolução Industrial do século XIX causaram a Insurreição de Viena, que sofreu um grande progresso nesse período. As então inúteis muralhas foram derrubadas dando lugar ao Ringstraße (/ringuistrasse/), o grande anel viário de Viena, edifícios enormes foram construídos, o Rio Danúbio foi regulado criando-se o Donaukanal (“Canal do Danúbio”, foto abaixo), a imigração tomou conta da cidade, a arte e a cultura (art nouveau) eclodiram fazendo com que grandes nomes passassem por ali e Viena virou um grande centro cosmopolita.

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Mas a dinastia dos Habsburgos, assim como toda a monarquia austríaca e todo o Império Austro-Húngaro, findou-se em 1918 no reinado de Carlos I, sucessor de seu tio-avô Francisco José I e de seu tio Francisco Fernando, assassinado em Sarajevo gerando o estopim que eclodiu a Primeira Guerra Mundial em 1914. Num ato desesperado, Carlos I renunciou a todos os seus poderes e fugiu da Áustria se exilando na Ilha da Madeira, devido às consequências das ocupações Napoleônicas, do fim da Primeira Grande Guerra Mundial, da vitória da Tríplice Entente e da completa dissolução de suas aquisições territoriais, como Hungria, Tchecoslováquia e tantas outras. A Áustria então tornou-se uma república em conjunto com a Alemanha (“Deutsch-Österreich“), passou a ter as diminutas dimensões atuais, não voltou a ser monárquica e Viena nunca mais voltou a ser a populosa, efervescente e a tão poderosa capital do centro europeu.

A Primeira Grande Guerra Mundial causou gigantescos danos a Viena, com um grande impacto principalmente financeiro. Seus altíssimos custos resultaram em fome generalizada, uma inflação galopante e a falência de seus cidadãos.

Em 1938, Viena foi ocupada de vez pelos alemães, com a visita pessoal do austríaco chanceler alemão Adolf Hitler (confuso isso de um ditador austríaco ocupando a própria terra natal em nome de outro país que não era dele… mas de lógico Hitler nunca teve nada mesmo). Viena já tinha um lado anti-semita bastante aguçado e por isso os nazistas acharam um solo bem fértil na cidade, possuindo 12 campos de concentração na época.

Em 1945, a ocupação foi então soviética e essa sim causou grande destruição física à cidade, com muitos prédios históricos tendo que ser restaurados no pós-guerra. A República Democrática da Áustria foi instaurada mas a liberdade só chegou mesmo em 1955 com o Tratado de Estado Austríaco trazendo de volta o crescimento econômico, principalmente por causa do apoio norte-americano através do Plano Marshall.

O legado que os Habsburgos deixaram à Viena é colossal. Cada um de seus palácios são uma maravilha de se ver, visitar e conhecer sua rica história. O mais pomposo deles é o barroco Palácio de Schönbrunn, meu favorito!

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Schöner Brunn significa “bela nascente”, devido a um poço que havia ali na área. Construído no século XVII, mas foi Maria Teresa que o reconstruiu como é hoje, com o estilo rococó, as expansões e os parques deslumbrantes por onde se deleitam milhares de turistas diariamente e classificado merecidamente pela Unesco como Patrimônio da Humanidade.

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Residência usada no verão pelas famílias imperiais e suas centenas de agregados, o centro cultural, político e monárquico de todo o Império é hoje um museu extremamente preservado, com a área externa gratuita ao público. Era ali que os príncipes e as princesas que tanta sabedoria e hombridade espalharam pelos seus reinados no mundo todo recebiam a educação magistral austríaca. Também foi a residência escolhida por Napoleão durante sua ocupação na Áustria.

O interior é de um luxo extremo, redecorado repetidamente por cada monarca que o ocupava.

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O ponto auge dos jardins franceses do palácio é a belíssima neoclássica Gloriette, que fica no cume de um monte e onde se tem uma, de fato, gloriosa vista panorâmica do palácio e da cidade de Viena.

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Já o palácio de inverno e a residência oficial dos Habsburgos ficava na Heldenplatz (“Praça dos Heróis”), no centro da cidade e do poder de Viena. Era um castelo medieval chamado de Hofburg.

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Abrigou o diplomático Congresso de Viena de 1814, onde todo o mapa político da Europa teve que ser redesenhado de acordo com as enormes turbulências causadas pelo apogeu e declínio das conquistas e apropriações francesas de Napoleão Bonaparte. Incluindo a retomada do Brasil à condição de colônia em 1821, com a reinstauração do trono de Dom João VI em Portugal e fazendo-o retornar da transferência forçada de sua corte ao Brasil em 1808, porém deixando seu filho mais velho, o príncipe Dom Pedro I, regendo a colônia tupiniquim.

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A Heldenplatz abriga o animado Volksgarten (“Jardim do Povo”) , dois museus gêmeos, o Kaiserforum (“Fórum Imperial”), e o museu Neue Burg (“Novo Castelo”), cuja varanda Adolf Hitler proclamou o Anschluss, a anexação da Áustria ao Terceiro Reich em 1938.

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Atualmente o Palácio de Hofburg também ocupa o Gabinete Presidencial austríaco, a Biblioteca Nacional da Áustria, a Escola Espanhola de Equitação, o Silberkammer (museu de pratarias dos Habsburgos, com uma quantidade absurda de peças de ouro), os  Kaiserappartements (museu dos “Apartamentos Imperiais”) e também o meu adorado Museu da Sissi.

E então vamos falar de minha ídola, a lendária Sissi. Isabel da Áustria (Elisabeth em alemão), filha do Duque Maximiliano e da Duquesa Ludovica da Baviera, Imperatriz consorte de todo o Império Austro-Húngaro devido a seu casamento com seu primo primeiro, o Imperador Francisco José I, filho da rigorosa Arquiduquesa Sofia da Baviera.

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Sissi foi uma das mulheres mais belas e progressistas da monarquia européia e é até hoje um grande mito popular. Nasceu em Munique na véspera de Natal (um dia depois do dia do meu aniversário 😀 ), e casou-se inusitadamente em 1854, aos 16 anos, devido a uma paixão fulminante do Imperador durante a visita da bela prima à Áustria.

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(Abro um parênteses aqui para me perguntar: porque nossos cabelos não crescem mais tanto assim hoje em dia? O que seria tão diferente naquela época, a alimentação, o estresse era menor, evoluímos geneticamente?? Será que já existia megahair no século XIX? Muito perfeito, hein?!)

Bom, continuando… Apesar de muito vívida e intensa, Sissi rapidamente começou a sofrer grave depressão por ter de se submeter a extremistas condições da realeza austríaca. Constantemente impedida de amamentar, ver e criar seus rebentos pela rígida sogra, também perdeu sua primogênita aos dois anos de idade, logo em sua primeira viagem a Budapeste.

Muito inteligente, articulada e humanitária, porém muito solitária, escrevia poemas e viajava constantemente para fugir das excessivas etiquetas e protocolos da corte vienense. Tinha uma paixão de infância pela cultura húngara e foi a responsável por arquitetar a unificação das coroas da Áustria com a Hungria, convencendo seu marido e fazendo-o abandonar a conduta altamente absolutista e opressiva.

“A voz de um nunca deve estrangular os pensamentos próprios nem afugentar os alheios.” – Isabel da Áustria

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Fotos abaixo da Basílica de São Estevão onde foram coroados em Budapeste, quando Sissi usou o tão controverso vestido húngaro, com o típico corpete regional em veludo azul escuro representado acima, chocando a arrogante sociedade austríaca que não aceitava os costumes nem o idioma dessa nova cultura considerada “tão vil” que estava sendo anexada.

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Sissi tinha a total noção da necessidade do esporte para manutenção da saúde e do vigor, era atleta ávida, e mantinha uma academia particular em seu próprio quarto. Fato altamente inovador para uma mulher da época.

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Seu único filho homem, o príncipe herdeiro Rodolfo, foi encontrado morto aos 30 anos de idade, junto com sua amante de 17 anos, numa série de incidentes chamados de Mayerling. Sissi jamais se recuperou de sua depressão após essa tragédia e passou a usar luto para o resto de sua vida.

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Em 1898, aos 60 anos de idade, numa viagem a Genebra, Sissi foi assassinada com uma grande agulhada no coração pelo anarquista Luigi Luchesi. Sissi ainda demorou algum tempo até perceber a gravidade do golpe que havia sofrido e faleceu a bordo do vapor que tomaria para atravessar o lago Lemano. Seu sarcófago encontra-se na Kaisergruft (“Cripta Imperial”) de Viena, junto a seu marido Francisco José I e seu filho Rodolfo.

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Um outro castelo muito deslumbrante de Viena é o também barroco Palácio Belvedere (“Bela Vista” em italiano), construído no século XVIII e vendido por seus herdeiros à Maria Teresa, que o transformou na Galeria Real.

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Hoje continua sendo um museu de arte, e sua obra mais popular é “O Beijo” do ilustre vienense Gustav Klimt, líder da revolucionária associação de artistas do final do século XIX chamada Sucessão de Viena.

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O edifício neoclássico sede do Parlamento Austríaco (“Österreichisches Parlament“) também tem uma importante presença na cidade.

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E ao seu lado fica o belíssimo Palácio Rathaus, construção antiga do final do século XIX e atual sede da prefeitura e do conselho municipal.

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Os jardins do Rathaus, o Rathausplatz, ficam logo a frente e são ainda mais lindos que o palácio, com o Teatro Nacional logo atrás dos jardins.

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Se tem uma coisa que essas cidades medievais da Europa mais possuem é igreja. Viena tem uma das mais antigas catedrais góticas européias, a Stephansdom (“Catedral de São Estevão”), datada de antes do século XIV. Renovada na renascença, hoje possui um interior de estilo barroco e seu sino, o Pummerin, pesa 21 toneladas.

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Outra igreja com o interior muito bonito, também no centro, é a de São Pedro. Vale a pena entrar e contemplar o seu domo.

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Eu cheguei na cidade de ônibus e peguei o metrô (U-Bahn) para o centro, descendo na Stephenplatz, praça central onde fica a Catedral de São Estevão. A minha primeira impressão da cidade foi um pouco claustrofóbica. Eu tinha na minha cabeça que Viena era ampla, com grandes jardins abertos e espaçados. Mas a quantidade de prédios, todos totalmente grudados uns nos outros, e as estreitas ruas entre eles me surpreenderam um pouco. Essa impressão foi totalmente superada posteriormente, a partir do momento que fui me adaptando e me interando com a rotina turística da cidade.

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Mas todo mundo sabe que o que mais nos encanta sobre Viena é o fato de ela ser a Cidade da Música, não é verdade?!? A música e a arte estão no ar de Viena e é só o que se pensa por lá. Tem tudo a ver, igualzinho no clássico filme “Antes do Amanhecer“!

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O período mais espetacular de Viena, musicalmente falando, foi o chamado Classicismo Vienense, que se refere ao meio século seguinte a 1770, quando a genial Trindade Vienense (Haydn, Mozart e Beethoven) chegava a seus ápices produtivos tendo Viena como platéia.

Entrei pela cidade já ansiosa para saber de tudo, visitar tudo relacionado a esses uber compositores que fizeram de Viena seu lar e muitas vezes sua inspiração. Não pude deixar de visitar seus museus e suas residências quando por lá estiveram. E não me arrependi.

A primeira delas, a HaydnHaus, é um museu dedicado ao austríaco erudito Joseph Haydn desde o ano de sua morte, 1809, pois sua genialidade já era reconhecida em vida devido às mais lindas sinfonias já produzidas. Teve uma vida extremamente interessante, indo da mais extrema pobreza como morador de rua, chegando à mais alta patente musical da corte húngara. Grande amigo de Mozart, sofriam de admiração mútua extrema. A merecida fama de suas Sinfonias de Paris o renderam um convite para tocar para a própria corte francesa de Maria Antonieta. Mas foram suas Sinfonias de Londres que o conduziram à eternidade. Tanto era o seu prestígio que o próprio Napoleão Bonaparte não admitiu que perturbassem seu leito de morte em Viena quando a cidade estava sendo bombardeada.

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E então vem o maior compositor clássico austríaco, nascido em Salzburgo, Wolfgang Amadeu Mozart… Ahhhhh, Mozart, Mozart, Mozart… Haja coração.

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Para começar, aos 6 anos de idade, o já compositor, espevitado e genial Mozart, foi convidado a tocar para a própria Imperatriz Maria Teresa na sala de música de seu palácio. Logo se espalhou que Mozart além de cometer o sacrilégio de encostar fisicamente no corpo sacro de uma Imperatriz, também roubou-lhe um beijo, deixando a monarca ainda mais encantada com seus talentos. Também diz a lenda que o safadinho infante naquele dia teve o disparate de se apaixonar pela então princesa Arquiduquesa Maria Antonieta chegando a ponto de pedi-la em casamento. Desde então nunca mais deixou de se apresentar para as cortes de toda a Europa, exibindo-se até para o Papa aos 13 anos de idade.

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Apesar de sua única irmã que sobreviveu à infância, Nannerl Mozart (foto abaixo), ser também tão genial quanto o caçula, Wolfgang Mozart é que se tornou o enorme orgulho da Áustria.

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A Mozarthaus, uma das casas em que Mozart, aos 27 anos, alugou para viver com sua esposa Constanze, filhos e funcionários, no centro abastado de Viena, em que tocava, compunha, realizava recepções e hospedava convidados e familiares, incluindo seu dedicado pai Leopold. É hoje um emocionante museu, onde pode-se imaginar nostalgicamente seus passos, sua rotina, sua humanidade de gênio. Foi nesse apartamento que Mozart compôs a ópera cômica “As bodas de Fígaro”, dentre vários outros clássicos. Mudou-se em pouco tempo dessa casa devido a problemas financeiros.

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Nessa época Mozart conheceu seu grande amigo e confidente Haydn e ambos deram aulas a um grande talento juvenil que passava pela cidade, chamado Beethoven. Mozart faleceu novo, aos 35 anos, de uma infecção nos rins, com problemas financeiros, deprimido, enterrado anonimamente em uma vala comum desconhecida e deixando divinas obras primas ainda inacabadas.

Agora o mais jovem dos gênios da Trindade Vienense, o poeta-músico alemão Ludwig van Beethoven (que na tradução literal para o português quer dizer: Luís Do povo Horta de Beterraba). Conhecido na época como o Novo Mozart, porém com diferentes infortúnios pela vida: um pai alcoólatra que espancava a mãe, e aos 26 anos, já morando em Viena, foi diagnosticado com princípio de surdez.

Concebeu inúmeras obras primas inesquecíveis, incluindo a Sinfonia Eroica ( 3) dedicada a Napoleão Bonaparte, e a mais famosa música do mundo, a Nona (Sinfonia  9, ou Coral), absolutamente inovadora e livre, escrita por vontade própria e não encomendada por nenhum nobre. Foi sua última sinfonia que compôs já completamente surdo, usando somente artefatos condutores que fossem capaz de trazer as vibrações sonoras do piano até sua boca, tentando identificar sons em seu cérebro introduzidos não mais pelo ouvido, mas pelos ossos de seu maxilar. Mas os aplausos ovacionados de suas platéias ele nunca mais pode ouvir.

“Alegria bebem todos os seres
No seio da Natureza:
Todos os bons, todos os maus,
Seguem seu rastro de rosas.
Ela nos deu beijos e vinho e
Um amigo leal até à morte;
Deu força para a vida aos mais humildes
E ao querubim que se ergue diante de Deus!”
(“Ode a Alegria”, 9ª Sinfonia)

Reconhecido como o maior compositor do século XIX, é muito emocionante estar na mesma sala, admirar o cravo e ver os rascunhos em que Beethoven compôs sua única ópera “Fidelio” (ou “Leonore“),  várias de suas sinfonias e nada menos do que, pasmem!, “Pour Elise” (mirémirémi, sabe qual é?), me deixaram muito tocada. Ok, literalmente… O apê que o meu amado Beethoven morou por oito anos no quarto andar da bicentenária Pasqualatihaus (“Casa do Pasqualati”) é algo de arrepiar os pelinhos do braço.

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E tá longe de acabar. Franz Schubert, o também romântico, contemporâneo de Beethoven, apesar de não ter tido sua genialidade reconhecida em vida, é mais um compositor austríaco que tem sua casa transformada em museu em Viena, a Geburtshaus.

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Abaixo, Schubert e Beethoven enterrados lado a lado no Cemitério Central de Viena.

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E agora o mais legítimo compositor clássico vienense, o inebriante Rei da Valsa, Johann Baptiste Strauss, nascido, criado e falecido em Viena do século XIX. Compôs mais de 500 músicas dançantes, que embalaram os bailes da época e ainda embalam consortes e debutantes até hoje. Compôs valsas deliciosas, incluindo nada menos que a lindíssima “Danúbio Azul”.

No Stadtpark foi erguida uma linda estátua em sua celebração.

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Mas não foram só compositores famosíssimos que habitaram Viena em suas épocas de glória, não. Uma outra personalidade de altíssimo gabarito também residiu na cidade e deixou seu legado transformado em museu até hoje. Sigismund Schlomo Freud, o médico neurologista mais citado do mundo.

Nasceu no Império Austríaco, de uma família judaica, numa cidade que hoje pertence a República Tcheca. Começou estudando os conceitos da Histeria (do grego hystera, que significa útero), doença que antigamente denominava as pertubações causadas pelo útero feminino em sua ligação sanguínea com o cérebro, causando graves problemas tanto físicos quanto mentais, como paralisia, cegueira, surdez, pânico, etc, e por isso no passado era somente associada às mulheres. 

Freud pesquisou muito a técnica da Hipnose para tratamento de Histeria, por sempre acreditar que se tratava muito mais de distúrbios psicológicos do que físicos. Posteriormente observou que o acesso ao inconsciente e a cura da neurose através da hipnose profunda ou de drogas medicinais nem sempre possuíam os efeitos duradouros e nem todos os indivíduos estavam suscetíveis à sugestão hipnótica e à liberação de memórias reprimidas.

Deu à luz, portanto, a Psicanálise moderna, com o intuito de guiar o paciente às causas de seus sintomas através do diálogo psicanalítico (a cura pela fala, a catarse), emergindo os motivos de seus traumas reprimidos ao nível consciente, principalmente os traumas sexuais, e proporcionando assim uma satisfação definitiva. Segundo Freud, a contradição entre os impulsos instintivos e a vida em sociedade gera no ser humano um tormento psíquico de grande impacto tanto em seu psicológico quanto em seu físico e social (bastante atual esse Freud, hein?).

Freud substituiu o Tratamento Hipnótico pelo da Livre Associação, onde o paciente é encorajado a relaxar-se em um divã e a externalizar tudo o que vem a mente inclusive seus sonhos. O médico então concentra-se em investigar em seus relatos todos os desejos, memórias, traumas, medos, conflitos, que estejam além do conhecimento consciente do indivíduo. Em 1900, publicou o livro extremamente inovador para a época, intitulado “A Interpretação dos Sonhos”, que aborda os processos inconscientes, pré-conscientes e conscientes dos sonhos.

Em 1938, devido a ocupação nazista do Império Austríaco e após perder quatro irmãs nos campos de concentração, Freud refugiou-se na Inglaterra onde morreu aos 83 anos.

Fotos abaixo da reconstrução da sala de espera de seu consultório em Viena, e de uma representação em miniatura de um de seus divãs.

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Agora vamos aterrizar na Viena do século XXI, uma cidade bastante moderna, bonita, limpa, clara, chique, glamourosa, cultíssima.  O transporte público é super acessível, uma coisa que me impressionou muito é que em qualquer ponto da cidade existe um VLT passando perto, a malha é ultra abrangente. Lá só anda de carro mesmo quem quer, principalmente quem adora andar de carrão! Eles estão por toda parte… Parece até a Alemanha.

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Para quem é daqueles que não vive sem fazer um shopping, Viena tem uma avenida gigante inteira só de lojas, a Mariahilfer Straße (lê-se: Mariarrillfer Strasse, “Rua da Ajuda de Maria”, porque só com ela mesmo pra não gastar tanto por lá). São mais de 3 quilômetros que vão desde o centro da cidade até o Palácio de Schonbrunn, passando pela Westbahnhof (Estação Ferroviária Oeste). É opção para todos os tipos de consumistas, de todos os gostos e bolsos.

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E para quem é dos meus, que não descarta um turismo gastronômico, Viena tem o Naschmarkt um mercado a céu aberto ma-ra-vi-lho-so, pertinho do centro também.
Coloridíssimo, diverso, chique, popular, limpo, organizado, público, delicioso. Afinal, o melhor da Europa é comer bem, não é mesmo? Vários restaurantes abertos de dia e de noite com comida de qualidade e preço acessível, porém não se esqueça: em euros.

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O entretenimento mais moderno da cidade é o parque Prater, onde fica a Wiener Riesenrad (Roda Gigante de Viena), a primeira, mais antiga, “London Eye” da Europa.

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E por último não poderia deixar de falar do caudaloso Danúbio, tão importante para a Europa Central. O rio oferece vários cruzeiros, inclusive aqueles dançantes que você pode ir no fim da tarde para degustar um delicioso jantar, com um passeio deslumbrante, numa vista agradabilíssima.

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Mas o mais legal mesmo é pegar um barco e navegar pelo Danúbio até Bratislava, cruzando a Eslováquia, e depois prosseguir de cruzeiro até ninguém menos que Budapeste, na Hungria.

E é essa a maneira ideal de se despedir com chave de ouro de uma lugar tão mágico como Viena. Auf wiedersehen, liebe Wien! (Adeus, querida Viena!, em alemão).

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PS: Só pra não perder a viagem, seguem abaixo as fotos de Bratislava e Budapeste, ambas na margem do lindo Danúbio:

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Essa foi Bratislava.

Agora as cidades de Buda e Peste, hoje unificadas, porém sempre divididas em seu meio pelo Danúbio:

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Tschüss! :-*

 

 

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Uma resposta para Viena. É muita história.

  1. Mamae disse:

    Excelente filha. Estava com saudade de suas crônicas de via

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