Depressão, por Alline Oliveira


Não lembro o ano em que comecei a ficar deprimida… Devia ter uns dez anos de idade, ou menos…

Eu sei que quando eu menstruei pela primeira vez com certeza eu já estava deprimida, porque nem aquele dia, nem aquele acontecimento, teve efeito emocional em mim. Desde aquela época eu já era uma anestesiada por natureza.

Recordo de episódios relevantes da minha infância, como quando cortaram meu cabelo de Joãozinho. Eu sabia que eu já tinha um comportamento “de menino” (como a sociedade rotula), mas quando não me reconheciam mais na rua como menina, isso terminou de assassinar a auto estima que eu ainda tinha de nascença.

Não tenho memória de momentos felizes em família, então sei que a apatia já me acompanhava desde cedo.

Quando fiz 19 anos tive uma experiência de quase morte. Parei de beber água e tive desidratação grave. Uma sensação crônica de desalento, nada tinha graça, o mundo não era meu amigo.

Mas aí um o psiquiatra finalmente me deu lítio para tomar. Eu saí da internação, abri o olho e vi que tinha retornado da passagem pelo túnel. Parece que a mão divina atravessou meu peito (coisa que eu nunca tive) e arrancou toda tristeza de dentro de mim. Por algumas horas.

Eu finalmente pude ver o outro lado da vida por alguns instantes novamente. Minha mente ficou sadia e eu pude guardar na memória recente como é o funcionamento de um ser humano normal.

Esse sentimento salvou a minha vida. Eu fixei o cheiro, a imagem, os pensamentos todos que eu tinha que trazer à tona toda vez que eu voltasse a ficar triste novamente. Agora eu tinha uma bússola na mão, eu tinha visto a luz no final da escuridão, e eu não deixei ela se apagar da minha mente mais.

Como eu percebi que morrer era mais difícil do que se imagina, então por comodismo eu preferi continuar vivendo, porque não tinha energia emocional para gastar nem com um suicídio. Se matar é para os fortes. Não era para uma fraca incompetente como eu.

Comecei a frequentar um centro espírita, meu namorado conseguiu me convencer a ir até lá quando viu que eu já era um caso para exorcismo. Foi o caminho inicial da minha cura. Eu senti o primeiro alívio ali. Uma sala pequena de ladrilho branco, com uma luz azulada bem suave. O silêncio tranquilo de pessoas respirando em compassos lentos. Algumas cadeiras bem simplórias, uma porta e uma janela somente. No canto uma mesinha com um garrafão de água e aqueles copinhos de plástico do lado. Você tem que beber a água quando entra. Aquilo desceu sentindo toda a benção do mundo em mim. Minha mente estava desesperadamente pronta para ser curada por qualquer milagreiro que se oferecesse.

E a voz dele surgiu de alguma daquelas cadeiras ali. Sussuros doces, palavras que emanavam a paz até os meus ouvidos. Venha, sejam bem vindos a essa casa. Um templo é de fato sagrado quando ele atinge a sua alma.

E naquele templo tão minimalista eu consegui respirar algum oxigênio. Meu corpo estava hipóxico há anos.

Deu para descansar um pouquinho naquela noite. O suficiente para recuperar o fôlego e sobreviver mais alguns anos assim.

Teve uma outra noite que eu senti a certeza da morte de novo. Foi quando eu exauri de uma vez por todas o relacionamento com a última pessoa que ainda estava em minha volta. Eu não tinha mais nenhuma ideia mirabolante para fazer alguém aguentar ficar em minha companhia por nem mais um momento. Agora era eu sozinha por completo, não só na mente, mas também na vida real. O chão não existia mais pra mim. É a sensação de queda livre constante. É horrível. É desesperador. Não conseguir respirar. E ao mesmo tempo não desfalecer nunca. Ficar sentindo aquilo e não aliviar. A morte é a única saída. Na verdade aquilo já é a morte chegando, é só apressar a tortura enquanto ela não chega.

A exaustão já tinha chegado a horas mas minha mente ainda tinha forças para continuar o linchamento. De alguma forma eu desfaleci. Na minha cama de sempre. No meu quarto sozinha. Eu sei que eu tinha um gatinho naquela época. De repente ele até estava ali comigo aquela noite, mas eu não lembro.

Só sei que abri o olho na manhã seguinte, depois de algumas horas desmaiada, a sensação era de choque. Eu não havia morrido. E também passou a sensação de morte. Não estava curada de nada, mas de depressão eu aprendi que não ia morrer.

Mais alguns aninhos se passaram, tudo na minha vida eu odiava fazer ou estar. A faculdade e a minha casa ocupavam todo o meu dia, me consumiam tantas horas diárias, sem folgas, que não sobrava muito tempo para descobrir nada que me fizesse sentir melhor. O esporte não supria mais minha desnutrição emocional, nem mesmo as grandes amizades. A família só piorava tudo, sendo um dos maiores combustíveis da minha doença.

Nos últimos meses de faculdade eu já estava em estágio terminal. Tinha tentado fugir para outros mundos, tinha saido de casa uma vez e foi a melhor coisa do mundo, cheguei perto de sentir a vida novamente. Mas depois de seis meses me fizeram voltar para casa. Então mudei de faculdade e de cidade, mas a depressão foi junto comigo e o lugar e a outra faculdade eram ainda mais deprimentes. Voltei pra trás depois de um ano e continuei de onde estava mesmo.

Cheguei na reta final da minha graduação pesando 43 quilos. Estava anoréxica. Cheia de transtorno alimentar. Estava namorando firme novamente mas a relação não ia nada bem, assim como toda a minha vida e a minha saúde física e mental. Chegou a formatura e pelo menos aquela tortura imensa chegava ao fim. Mas não quer dizer que eu tinha qualquer perspectiva de futuro elaborada na cabeça. E ainda existia o fato de que não é nada fácil se livrar de um algoz que consumiu toda a sua vida por tantos anos. Eu continuaria trabalhando dentro da própria faculdade como empreendedora júnior incubada pelo CNPq, ganhando uma miséria, mas pelo menos com a liberdade de quem decide sua própria hora de comer ou dormir, ir ou vir. Eu podia finalmente voltar a pensar.

Só que pouco tempo após o meu último dia de torturidade (lê-se: universidade) caiu um raio na minha cabeça. O destino não veio ao mundo a passeio.

Eu descobri que estava grávida e o desespero nem tinha pensado em sair de dentro de mim e já estava voltando com tudo. Não me pergunte como eu tinha ficado grávida porque sinceramente até hoje eu não tenho a menor ideia. Aquilo fazia zero sentido. Eu achava que não tinha nascido para ser mãe. Que idiota. Desde quando isso existe?

A gravidez anestesiou meu psicológico de vez. Até casar, eu casei. Virei um vegetal com pernas. E bucho. Síndrome de pânico era pouco para o que eu estava sentindo. Mas é incrível como a gente simplesmente não morre. Ou simplesmente morre, só que não era o meu caso.

E de tanto não morrer, o grande dia finalmente chega. E o meu finalmente chegou. Mal sabia eu.

O meu filho tinha nascido uma hora atrás e eu estava acordando da anestesia. De um minuto pro outro a dor da cirurgia veio insuportável pra mim. Gritei de dor e me aplicaram morfina na veia.

Pronto. Não demorou nem dois segundos. O efeito é absurdamente rápido.

Em um golpe de sorte, a cura chegou completamente em minha vida. Pela primeira vez aos 25 anos de idade, eu descobri o que significa a palavra PAZ. Porque pela primeira vez eu senti PAZ.

E eu entendi que esse sentimento é o que define o próprio sentido de viver. É a resposta da pergunta “Pra quê vivemos?”. Para sentir paz.

E desde então, até hoje eu vivo em função dessa minha experiência passada. Demorei mais dez anos pra poder me sentir completamente curada de todas as sequelas da depressão grave que tive, mas me curei. Por completo.

Hoje vejo as pessoas passando por depressão por todo lado. Empatizo totalmente com elas. Só um deprimido entende outro deprimido.

A depressão não saiu de mim, do meu DNA. Talvez nunca saia até eu morrer (agora de morte morrida). Mas ela está 100% sob controle. Eu que domino ela agora. Eu atingi o auto conhecimento, e venci a maldita.

E venço ela todos os dias sem usar qualquer tipo de droga pra isso. Entendi muito bem que a droga sintética pode até ajudar muito num momento de fundo do poço. Mas ela foi feita pra te prender nessa armadilha. E eu não sou uma iludida.

Não tomo nada que atue no meu estado psicológico de forma agressiva. Nem sequer café, nem sequer refrigerante ou bebida artificial hiper estimulante ou açucarada. Calmantes pra dormir, nem pensar. Mas também sem radicalismos. Se der na telha, um dia ou outro tomo um café ou um refrigerante. Chá até gosto bastante, mas só se não afetar meu estado energético. Bebo álcool socialmente. E tenho até uns homeopáticos de camomila ou passiflora pra relaxar nas noites que por algum motivo fico hiperativa.

Mas para conseguir isso tive que ir fazendo mudanças profundas na minha vida. Preciso manter um estado de equilíbrio constante. Controlar a ansiedade com pulso forte, evitar o que me faça sentir raiva. Dormir de oito a nove horas por noite. E tenho que principalmente conseguir manter minha independência financeira, mesmo que aos trancos e barrancos, pelo menos até meu empreendedorismo conseguir pagar minhas contas com uma certa folga.

Também o físico tem que acompanhar o mental e vice versa. Se sinto meu emocional desequilibrar, boto logo o corpo em ação e interrompo minhas atividades mentais na marra. Vou botar o pé na areia ou caminhar num parque bem arborizado, com bastante ar para respirar.

O importante é que eu consigo hoje manter minhas próprias perspectivas de futuro numa boa, meus níveis hormonais necessários, tudo de forma orgânica e natural, eu comigo mesma. Também sei que todos os meus privilégios são essenciais para isso tudo acontecer.

E tem uma outra coisa também que eu fiz e faço cotidianamente. Bloqueei todas as pessoas e as coisas tóxicas de perto de mim. Dentro de mim só ficam sentimentos bons. Que me aprazem. Se algo ou alguém emana ou gera em mim sentimento negativo com certa frequência, então bloqueio. Corto a relação e a proximidade. Nem hesito. Não mais. Tô bem madura pra isso.

Também não quer dizer que eu vá recusar qualquer tipo de reaproximação caso alguma dessas pessoas se interessem em passar a só emitir sentimentos bons em minha direção. Mas isso até hoje não tem acontecido pra mim. Não me importa.

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